22/09 - DIA DA MENTIRA
Um aglomerado de pessoas, um pequeno mastro de madeira em meio à multidão, são tantos a espera de transporte que já invadem a rua, ficam há algumas dezenas de metros do local da parada. Um ônibus se aproxima lentamente no horizonte, percebe-se que está lotado, olhando de longe, mal se enxerga a luz interna, um bolo de gente o preenche completamente. Ao contrário do veículo, o relógio avança rapidamente, não se pode esperar por mais conforto. Vamos pegar este mesmo. Com um gesto ele vai freando, todos correm em direção à porta. Ao entrar, um bafo quente adentra as narinas de todos. Olha-se para o chão a procura de um espaço para avançar em direção à catraca. Prendendo a respiração, encolhendo a barriga, levantando-se na ponta dos pés e empurrando levemente as pessoas ao seu redor é possível chegar lá. Após pagar a passagem e ultrapassar a roleta - esta, coitada, mal tinha espaço para fazer o seu trabalho, girar – encontra-se um aglomerado ainda maior, a porta está localizada no meio do ônibus, todos querem ficar mais perto possível da saída, por vários motivos, um deles é para que cada vez que a porta abra, seja possível sentir uma leve brisa vinda do lado de fora, ufa! Que alívio! Alguns, poucos, com fones de ouvido conseguem relaxar e se distrair com o rádio, a maioria, sem aparato de entretenimento algum, prestam atenção uns nos outros, para, assim, fazer uma reflexão sobre seus defeitos e começar o dia já em ritmo estressante, a ponto de bala!Imagine tudo isso e agite um pouco de lá para cá, como o balanço de um navio negreiro levado pela maré do Atlântico. Cenas exatamente iguais a esta acontecem centenas de milhares de vezes todos os dias na cidade de São Paulo, principalmente entre às 5 e às 9 e das 17 às 20 horas, e algumas muitas outras vezes em outros momentos durante o dia.
Então um belo dia, um ser iluminado percebeu que ao invés de investir em mais ônibus, de melhor qualidade, que dêem menos voltas desnecessárias pelo mundo para chegar no quarteirão de trás, sairia mais barato convencer todos estes personagens reais da cena já descrita que eles estavam fazendo um bem para o meio ambiente, estariam poluindo menos e contribuindo para a saúde de todos. Para divulgar tal idéia, este alguém gênio resolve colar cartazes nas janelas destes coletivos, para que seus passageiros, além de apertados, não enxergassem a paisagem: trânsito, trânsito e mais trânsito.
Dia 22 de Setembro, dia mundial sem carro. É hoje! Assim como ano passado, por um simples paradoxo, o índice de congestionamentos ficou acima da média durante todo o dia. Assim como ano passado, os governantes municipais, para dar o “bom exemplo” só irão andar de ônibus, mas espertos como só eles, afinal, caso não fossem, não seriam políticos, utilizam os coletivos depois dás 9 horas da manhã, quando qualquer um poderia viajar deitado, dormindo, que não incomodaria ninguém. Além disso, utilizam o transporte disponível no centro da cidade, pois caso fossem à periferia, encontrariam alguns vários ônibus semelhantes às famosas “jardineiras”, utilizadas em fazendas de cana-de-açúcar, para transportar os bóias-frias.
Automóveis são o maior sonho de consumo da massacrante maioria da população paulistana, imóveis localizados próximos ao metrô tem seu valor levados à estratosfera. Por que? Porque 80% dos usuários de transporte coletivo utilizam os ônibus e estes são comandados por um sistema caótico. Ainda querem que eu pense que estou fazendo um bem pra humanidade quando tem alguém pisando no meu pé e outro arrastando minha mochila para poder passar porque outro sujeito que está sentado, é incapaz de segurá-la para mim? Existem mil modos de praticar a cidadania, a primeira é não pensar que o povo é burro.
postado por LEONARDO MORATO.

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